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30 de janeiro de 2021
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Mães em tempos de empoderamento feminino

Mães em tempos de empoderamento femininoArtigo: Mães em tempos de empoderamento feminino

O presente artigo, Mães em tempos de empoderamento feminino, possui como tema primordial a psicologia cognitiva comportamental e as influências das crenças femininas na intervenção da educação dos filhos. Nas últimas décadas, a psicologia vem ganhando cada vez mais espaço nos estudos da área de orientação familiar para educação infantil, denominada orientação parental, uma vez que vem mostrando eficácia nos tratamentos.

Sob a ótica do empoderamento feminino, podemos dizer que aquilo que foi galgado pelas mulheres, foi conquistado. Porém, há deturpações do que tenham sido realmente estas conquistas. A mulher não teria, de fato, ganhado o direito de multiplicar sua jornada de trabalho?

Vamos avaliar sob o aspecto da etimologia da palavra empoderamento:

empoderamento. [De empoderar (q. v.) + -mento, seja como tradução do inlg. empowerment, seja como criação do educador brasileiro Paulo Freire (1921-1997).] S. m. Neol. 1. Ação, processo ou efeito de empoderar(-se). 2. Sociol. Conquista e distribuição do poder de realizar ações, ao adquirir-se consciência social e conhecimento, de forma a produzir as mudanças a partir destas aquisições. 3. Educ. Processo pelo qual indivíduos e grupos sociais passam a refletir sobre – e a tomar consciência de – sua condição e a de seus pares, e, assim, formulam e objetivam mudanças que levem à transformação da condição individual e coletiva. 4. P. ext. Superação da falta de poder político e social, coletivo ou individual das populações pobres.

empoderar. [De em-² poder + ar², para traduzir p ingl. (to) empower.] V. t. d. Neol. 1. Dar autoridade legal ou poder a. 2. Restr. Dar poder a (alguém), esp. o de realizar tarefa(s), atividade(s), sem precisar da permissão de terceiros. 3. Promover a conscientização e a tomada de poder (esp. o de influência) de (pessoa ou grupo social). Int. P. 4. Adquirir consciência e/ou conquistar poder e influência para realizar mudanças de ordem social, política, econômica e cultural.

Ao tratarmos de empoderamento feminino diante dos fatos, muito tem sido exposto sem levar em consideração o poder constituído que deve ser exercido pelos pais.

É preciso analisar o impacto psicoemocional gerado em todos os aspectos para pontuarmos as considerações psicoterapêuticas que virão em seguida.

As obrigações parentais legais

De acordo com o Artigo 1.364 do Código Civil Brasileiro, “compete a ambos os pais, qualquer que seja a sua situação conjugal, o pleno exercício do poder familiar, que consiste em, quanto aos filhos;

I - dirigir-lhes a criação e a educação;

II - exercer a guarda unilateral ou compartilhada nos termos do art. 1.584;

III - conceder-lhes ou negar-lhes consentimento para casarem;

IV - conceder-lhes ou negar-lhes consentimento para viajarem ao exterior;

V - conceder-lhes ou negar-lhes consentimento para mudarem sua residência permanente para outro Município;

VI - nomear-lhes tutor por testamento ou documento autêntico, se o outro dos pais não lhe sobreviver, ou o sobrevivo não puder exercer o poder familiar;

VII - representá-los judicial e extrajudicialmente até os 16 (dezesseis) anos, nos atos da vida civil, e assisti-los, após essa idade, nos atos em que forem partes, suprindo-lhes o consentimento;

VIII - reclamá-los de quem ilegalmente os detenha;

IX - exigir que lhes prestem obediência, respeito e os serviços próprios de sua idade e condição.”

Vamos ressaltar aqui os incisos I e IX. Com isso, devemos observar que não apenas cabe aos pais educar seus filhos, mas também orientá-los a adquirirem responsabilidades de acordo com a sua idade e condição.

Isso quer dizer que sim, é preciso impor limites e obrigações aos filhos para que estejam aptos à convivência social saudável em sua fase adulta. É uma reponsabilidade legal dos pais.

Porém, vejamos sob o prisma de uma mãe que “foi empoderada do poder que já era seu”. Agora adicionemos ao poder maternal a mesma jornada de trabalho do pai ou, em casos de casais separados onde os filhos vivem com a mãe ou ainda as mães solo; todas as atribuições legais, emocionais, sociais e financeiras.

Empoderamento Feminino e Empreendedorismo

Vamos além e digamos que esta mãe chegue em casa e tenha de cuidar da conservação e higiene do lar, alimentação dos filhos e de seu companheiro (caso vivam juntos), conferir e auxiliar nos deveres escolares, orientar e corrigi-los, etc, etc, etc.

Enquanto ela tem todos esses afazeres, o que seu companheiro está fazendo? Está ajudando nos cuidados da casa, de algum dos filhos, das roupas das crianças? Não. Está imerso em seu universo particular enquanto a “mãe é o único pilar deste lar”.

É fato, obviamente, que temos uma crescente – ainda muito moderada – de pais mais presentes no convívio, educação, acompanhamento dos filhos e divisão das tarefas domésticas. Porém, ainda é minoria.

Então, além de mãe zelosa, dona de casa, profissional exemplar, esta mãe precisa ainda satisfazer-se em sua relação conjugal, em seu crescimento profissional, intelectual, atividades sociais e, quem sabe, cuidar de sua saúde física e mental.

Ao entender estes aspectos, a questão estende-se a qualquer modelo familiar, independente da orientação de sexualidade.

Ao tratarmos de empoderamento feminino, precisamos verificar o histórico social em que evoluiu este termo. A mulher de fato conquistou sua independência e vem alcançando posições de destaque e notoriedade profissionalmente.

Todavia, esse “empoderamento” consolida-se com o acúmulo de tarefas. Isso poderia tornar-se o estopim para um ponto de desequilíbrio na estrutura familiar? Absolutamente, sim.

O empreendedorismo alavancou o Brasil nos últimos anos e temos uma crescente expressiva da participação feminina.

Em 2020, segundo o Sebrae – Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de São Paulo, houve aumento de 40% de micro e pequenas empresas abertas por mulheres.

A Global Entrepreneurship Monitor (2019/20) aponta que temos 30 milhões de mulheres empreendedoras, representando 48,7% de todo o mercado empreendedor.

Associemos a isso, dentro do período global pelo qual passamos, lidar com necessidade de sustento familiar, educação e cuidados com os filhos, empreendimento e, consigo. Afinal, não é possível obter sucesso profissional sem uma imagem pessoal condizente.

Impactos na estrutura familiar

Ao deparar nas práxis de intervenção comportamental, pode-se constatar a evidência de comportamentos disfuncionais das crianças e a dificuldade das mães em lidar com eles. Principalmente quando estas relatam a tripla jornada de casa / trabalho / filhos.  A dificuldade que apresentam, geralmente, vem em não saber lidar, o que falar e como fazer em determinados momentos, de birras, frustrações e os desejos imediatos da criança, dentre outros. (RANNA W, 1980)

Dentre os problemas apresentados nas sessões, estão a dificuldade em lidar com o apelo emocional e os limites aos filhos.

A celeuma na relação parental é causada pela impossibilidade em lidar com situações alheias às suas possibilidades, o que gera na criança comportamentos que não só afrontem a autoridade, mas que provoque a reparação pela ausência materna sofrida.

Em função disso, a mãe passa a fazer concessões que nem sempre seriam ideais, criando compensações fictícias numa relação que deteriorará e implodirá mais adiante.

O impacto psicológico negativo ocorrerá em ambos os lados, pois nenhum deles sente-se satisfeito, sendo que cada um desses lados possui seu próprio axioma decretado.

Neste ponto o acompanhamento psicoterapêutico é recomendado para que o equilíbrio familiar seja restabelecido.

O poder natural materno

Sabe-se que o primeiro contato de qualquer criança na sociedade é na família nuclear. Relação esta que é responsável pelas primeiras impressões emocionais, estando presentes os afetos, os medos, as incertezas, enfim, todos os aspectos biopsicosocioemocionais (PAPALIA, 2006).

Naturalmente, a mãe exerce papel fundamental na estrutura familiar desde os tempos mais remotos e em praticamente todas as espécies animais.

É com ela que passamos a maior parte do tempo e com quem aprendemos as principais diretrizes sociais e de sobrevivência.

Ela possui um poder natural sobre suas “crias” que não pode ser contestado, salvo em casos excepcionais. A autoridade materna deve ser exercida junto a este empoderamento feminino.

A mãe que possui filhos homens, deve orientá-los desde a tenra idade para que compreendam o papel da mulher na hierarquia social e que, evidentemente, como pilar e geradora de vida, tem sim posição majoritária neste ciclo perpétuo.

Às filhas, que se desenvolvam independentes e autossuficientes emocional e profissionalmente. Desta forma, a balança social se tornará equilibrada, sem que haja a necessidade de a mulher ter mais a provar.

Em todo caso, é preciso nortear a educação e o crescimento dos filhos em relações de respeito e valorização mútuas em todos os aspectos, garantindo que assimilem naturalmente os princípios éticos em seu comportamento.

As bordas e limites ensinarão aos filhos a terem estes mesmos princípios em suas relações futuras, sejam quais forem, além de propiciar-lhes a oportunidade de desfrutar de maior equilíbrio emocional.

Se observarmos com prudência o termo empoderamento, veremos que por si só, em relação a maternidade não há necessidade de a mulher buscar algo que já possui naturalmente.

Sendo assim, deve-se trabalhar nas sessões de psicoterapia a proposição de melhor compreensão por parte da criança (de acordo com casa fase em que se encontra) as necessidades familiares que são conquistadas por esta mãe empoderada, independente.

Empoderamento Feminino e Inteligência Emocional

 

Para Goleman (1998), o desenvolvimento da inteligência emocional é “a capacidade de identificar os nossos próprios sentimentos e os dos outros, de nos motivarmos e de gerir bem as emoções dentro de nossos relacionamentos”. De acordo com Beck (2021) também se demonstra que “a forma como o indivíduo reage ao meio varia por suas emoções, norteada pelos seus pensamentos, influenciando seus comportamentos”.

 

Desde o aprofundamento da concepção de Inteligência Emocional (IE) por Stanley Greenspan em 1989 e em 1990 por Peter Salovey e John Mayer, o entendimento de suas competências tem sido estudado e utilizado por diversos setores, inclusive no ambiente corporativo.

Para Salovey e Mayer (2000), Inteligência Emocional é “a capacidade de perceber e exprimir a emoção, assimilá-la ao pensamento, compreender e raciocinar com ela, e saber regulá-la em si próprio e nos outros”.

Relatam ainda os dois psicólogos, que a IE está intimamente ligada a quatro domínios básicos:

  • Percepção das emoções:a precisão com que uma pessoa identifica as emoções.
  • Raciocínio por meio das emoções:empregar as informações emocionais para facilitar o raciocínio.
  • Entendimento das emoções:captar variações emocionais nem sempre evidentes e compreender a fundo as emoções (mais sofisticado do que o “identificar” do primeiro domínio).
  • Gerenciamento das emoções: aptidão para lidar com os próprios sentimentos.

 

Fundamentos de Goleman

Em seu modelo, Goleman estabelece cinco pilares como conjunto de competências e habilidades, sendo:

› Autoconsciência

Capacidade de reconhecer as próprias emoções.

› Autorregulação

Capacidade de lidar com as próprias emoções.

› Automotivação

Capacidade de se motivar e de se manter motivado.

› Empatia

Capacidade de enxergar as situações pela perspectiva dos outros.

› Habilidades sociais

Conjunto de capacidades envolvidas na interação social.

Ele identifica estes 12 domínios principais para desenvolver a inteligência emocional:

  1. Autoconhecimento emocional
  2. Autocontrole emocional
  3. Adaptabilidade
  4. Orientação para realização
  5. Perspectiva positiva
  6. Empatia
  7. Consciência organizacional
  8. Influência
  9. Coach e mentoria
  10. Administração de conflitos
  11. Trabalho em equipe
  12. Liderança inspiradora

A auto-observação será um fator imprescindível para interpretar suas emoções e como elas se manifestam em seu cotidiano.

Para lidar com as adversidades impostas pelo empoderamento feminino, o autoconhecimento é indispensável e só é possível que ele seja absorvido ao aceitar e permitir-se sentir e expor as emoções negativas, como a dor, o medo, a frustração, vergonha etc.

Entender as próprias vulnerabilidades e lidar com elas ajudará também na relação familiar e a tornará uma mãe mais forte e compreensiva, sem perder a autoridade ou recorrer a barganhas ilusórias na harmonização da relação mãe e filhos.

A praxe terapêutica será voltada para o autoconhecimento e percepção ambiental no desenvolvimento das competências e habilidades da inteligência emocional.

Substitua os presentes por tempo de qualidade

 

Por estas mudanças de parâmetros educativos, pode-se entender como é a dinâmica familiar pelos estilos parentais. Maccoby e Martin (1983) mencionam que os estilos parentais podem ser classificados em dois índices: Responsabilidade (Comunicação e afeto) e exigência (supervisão e controle).

 

Presentear os filhos em datas especiais é um costume cultural. Mas calma, dar presentes como forma de recompensa por qualquer situação corriqueira ou para suprir o vínculo emocional será nocivo para sua relação com eles!

Ao invés disso, é preciso a consciência organizacional citada anteriormente. No mundo agitado, apressado e corrido em que vivemos, talvez seja preciso que até mesmo a diversão seja organizada previamente.

Organizando o seu tempo, você terá um período em que possa se divertir com os filhos sem interrupções. É importante pra eles e pra você.

É claro que ninguém quer viver a vida com um cronômetro nas mãos. Se for possível estabelecer um dia dedicado exclusivamente ao núcleo familiar, onde possam ter atividades diversas, ver um filme, passear com o cão, visitar um parque ou qualquer outra atividade agradável aos seus costumes, isso impactará positivamente reforçando os vínculos afetivos.

Este tempo de qualidade tornará também a autoridade parental positiva, pois a criança passa a ter um percebimento mais claro da hierarquia familiar. Ela deixa de ter somente o momento em que é recompensada pela culpa que a mãe sente (por sua falta de tempo familiar) e compreende que “há tempo para tudo”.

É neste sentido que o acompanhamento psicológico intervém, trazendo luz à estas questões, propondo as soluções mais adequadas à reestruturação do convívio familiar salutar.

Ser uma mulher “autodependente” está compensando para a educação dos filhos?

 

A autodependência significa assumir a própria vulnerabilidade, ser responsável por si, admitir que “eu não sou onipotente”.

Entender que não é preciso escoras para se apoiar, porém ter humildade para pedir ajuda no momento de necessidade e resiliência para que as adversidades sejam o que são naturalmente, passageiras.

O empoderamento feminino não é algo novo, muito menos requer habilidades que não tenhamos.

Ao assumir que nós já possuímos poder sobre nós mesmas e que basta exercê-lo, nos tornamos mais aptas a alcançar a inteligência emocional necessária para nos mantermos conscientes de que a capacidade materna inerente da natureza humana faz parte deste empoderamento.

Lembre-se que as principais diretrizes sociais e de sobrevivência são aprendidas pelos filhos com a mãe.

Se você tem um parceiro(a) que divide as responsabilidades familiares harmônica e equilibradamente, ótimo. Caso não tenha, é preciso encontrar soluções viáveis que eliminem a tensão e a sobrecarga.

Analise as seguintes indagações:

O que seus filhos têm aprendido com você?

Você tem ensinado aos seus filhos a convivência respeitosa independente de gênero?

Tem ensinado aos seus filhos sobre a importância da mulher na hierarquia social e que ela já nasce empoderada, sendo a geradora da vida?

Seu comportamento reflete os princípios éticos que deseja que eles apreendam e levem para a vida?

Estes são apenas alguns dos questionamentos que podem ser trabalhados em terapia e fazê-la vivenciar o poder, o amor, o sucesso e o que equilíbrio que já lhe pertencem.

É preciso canalizar positivamente e fazer a autodepuração de nossos sentimentos. A psicologia tem os meios para que isso ocorra ordenadamente.

Bibliografia:

Ranna W, Okay Y. Grupos de pais de crianças e da equipe multiprofissional e sua influência nas diretrizes da enfermaria geral de um hospital infantil. Rev Pediatr (São Paulo). 1980;2:184-90.

Papalia DE, Olds SW. Desenvolvimento Humano. 8ª ed. Porto Alegre: Artmed; 2006. 888p.

BECK, J. S. Terapia cognitivo-comportamental: teoria e prática. 2ª Ed. Porto Alegre: artmed, 2013. Disponível em: www.adventista.edu.br. Acesso em 2 de fevereiro de 2021.

McMahon R. Treinamento de pais. In: Caballo VE. Manual de técnicas de terapia e modificação do comportamento. São Paulo: Livraria Santos Editora; 2007. Cap. 19, p.399-422.

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